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"Só 3% das denúncias feitas por crianças não têm fundamento", alerta psicóloga (Crescer)

Atualizado: Abr 13


Psicóloga aponta sinais de alerta no comportamento dos pequenos e dá dicas práticas para reconhecer abusos

Nathália Armendro


A devastadora perda do pequeno Henry – morto no apartamento em que vivia com a mãe e o padrasto, no último dia 8 de março – acende um alerta para mães e pais: como reconhecer sinais de abuso e violência contra nossos filhos, ou as crianças que nos cercam? E o que fazer para ajudá-las?

CRESCER ouviu a psicóloga Neusa Maria, especialista em saúde mental, para entender as formas possíveis de comunicação dos pequenos, além, claro, dos próprios relatos ditos claramente (aos quais, nós, adultos, nem sempre damos a devida atenção).

Neusa é cofundadora do projeto “Eu Me Protejo”, que atua na educação das crianças, para ensiná-las a reconhecer e a se proteger de abusos e agressões. Segundo ela, educar as crianças sobre seu próprio corpo e ensinar o que configura violência é o primeiro passo para evitá-la ou combatê-la.


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Quais sinais devem ser observados?

Em casos de violência física, os indicadores são sinais que, muitas vezes, podemos ver, como lesões. Mas há também a possibilidade de fraturas internas, que em geral se reflexem em queixas de dores inexplicáveis. “Os pais devem ficar atentos a manchas roxas ou vermelhas, cicatrizes, queimaduras, marcas de beliscões, de cinto, cigarro, mordidas. Ou até ao fato de a criança estar mancando ou reclamando de uma dor, ainda que não haja lesão aparente. Em geral, a violência ocorre em parte do corpo cobertas por roupas. Então, é preciso ficar de olho”, diz a psicóloga, que é também fundadora do projeto Renascer.


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É importante também ficar atento a possíveis mudanças comportamentais. “Uma criança alegre, feliz, que corre, brinca e, de repente, fica quieta... Ou que é muito apegada à mãe e quando ela está com o companheiro, não se aproxima, são sinais que merecem atenção. Se ela não quer brincar, começa a ter pesadelos, passa a ter medo de ficar sozinha, fica apática... Tudo isso merece atenção”, explica a especialista.

Outro alerta importante: se a criança chorar, vomitar ou se recusar a ir com alguém, não podemos deixar passar. “É sinal de algo muito grave. É uma mensagem de que ela está sofrendo alguma coisa.”

O desenho, a fala, a escrita também são ferramentas lúdicas que podem mostrar muito sobre a criança. “Quando a criança chega com um desenho, é importante perguntar à criança o que aquilo significa, como ela se sente. Precisamos estar atentos para conseguir perceber que há um ciclo de violência.”

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Precisamos falar sobre isso

Para introduzir o assunto em casa – seja entre as crianças ou entre os cuidadores – o projeto “Eu Me Protejo” criou uma cartilha ilustrada (que tem inclusive versões em Libras, inglês, espanhol e videolivros em português e em Libras). O livro tem linguagem bastante simples, e ensina as crianças a reconhecerem as partes do seu corpo, inclusive as íntimas, nos meninos e meninas. Também há ilustrações que explicam quem pode tocar a criança, e em quais situações, além de alertar sobre pedidos de estranhos para "carinhos".


Além de ajudar os pequenos a identificarem situações de violência e abuso, a cartilha também orienta para o diálogo aberto com cuidadores de confiança, sem segredos.

Mas quando falar disso com as crianças? Desde sempre, em qualquer situação, principalmente ensinando pelo exemplo. “A família pode escolher entre ser um ambiente de risco ou de proteção. E quando ela escolhe bater, pela palmada, ela escolhe ser um ambiente de risco. É por meio dessas referências que a criança constrói os seus valores. Bater, não. Palmada, não. A gente tem outros meios para educar os nossos filhos”, defende.

Segundo a psicóloga, só 3% das denúncias feitas por crianças não têm fundamento, por isso, devemos sempre acreditar nos relatos dos pequenos. “A gente jamais pode duvidar. A dúvida leva ao silêncio e o silêncio é um mecanismo que sustenta a violência contra a criança - o que leva à morte. Um sinal já é um motivo para se alarmar.”

O papel da escola

A escola é, em muitos casos, um espaço de acolhimento para crianças que são vítimas de violência ou sofrem abusos dentro de casa. É ali que alguns dos pequenos encontram escuta para denúncias, ou olhares atentos a hematomas e outros sinais de alerta.


Por isso, também há uma cartilha voltada especificamente para os profissionais da educação tratarem o assunto na escola. Vale lembrar, no entanto, que o fechamento das escolas por conta da pandemia deixou muitas crianças ainda mais vulneráveis. Por isso a importância de reforçar a atenção em casa, com os seus filhos ou outras crianças de seu convívio.

5 dicas práticas para evitar ou combater abusos e violência infantil

1) Ensine seus filhos sobre as partes do seu corpo, e a nomeá-las, inclusive as partes íntimas;

2) Ensine que o corpo pertence à criança: algumas pessoas em quem ela confia podem tocá-la durante o banho, depois de ir ao banheiro, ou quando está doente, por exemplo, mas sempre com seu consentimento;

3) Ensine seu filho que qualquer agressão ou toque nas partes íntimas não é normal, e deve ser denunciado;

4) Ensine que não há segredos entre vocês. Ele pode (e deve) contar tudo a você, ainda que o agressor peça segredo - e jamais será punido por você;

5) Leve a sério as denúncias de seus filhos. Qualquer sinal de agressão deve ser reportado à delegacia da Criança e do Adolescente, Conselho Tutelar ou Disque 100 (o Disque Direitos Humanos)


Fonte: https://revistacrescer.globo.com/Educacao-Comportamento/noticia/2021/04/caso-henry-borel-so-3-das-denuncias-feitas-por-criancas-nao-tem-fundamento-diz-psicologa.html


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